
Se tem algo que eu não perdôo na Depressão é quando ela me visita quando eu estou me divertindo.
Hoje eu estava jantando com meus amigos quando, de repente, ela veio se juntar à mesa. Como se não bastasse vir, ainda chega atrasada e senta sem pedir licença!!
Na hora que ela chegou, a conversa foi ficando mais baixa, desconexa, e eu já não estava acompanhando o que ninguém estava falando. Eles riam, e eu logo movia alguns músculos para abrir um sorriso, um pouco atrasado e amarelo.., para tentar convencê-los de que eu estava seguindo o rumo do diálogo.
Comecei a notar a madeira da mesa. Era interessante. Engraçado eu achar que analisar o tampo de uma mesa era mais interessante do que rir com meus amigos. A madeira tinha uns contornos deformados, sem sentido...! "Sem sentido" estava aquela conversa!! O que eles estão falando?! Então eu comecei a analisar cada detalhe da bebida vermelha no meu copo, mexer no gelo com o canudo, mexer nos morangos que boiavam.. Mas o que eles estão falando?! A essa altura eu já nem sorria mais quando eles sorriam, eu já nem escutava palavras soltas; eu simplesmente estava mergulhada no vermelho sangue do meu copo, alheia a qualquer movimento ou som que eles falavam ou lançavam pra mim.
Então eles começaram a se sentir mal, achar que tinham feito algo de errado que tinha me magoado.. afinal, antes da...fulana chegar, eu estava eufórica! Nessa hora eu notei a preocupação deles e resolvi tentar voltar a me divertir com eles. Me concentrei o máximo que pude no que eles falavam, tentava me prender no contexto, fazer algum comentário rápido, monossilábico e polissêmico. Bebia goles enormes da bebida alcóolica. Na verdade, eu estava tentando ingerir a falsa alegria que vem de acessório ao álcool: aquela sociabilidade passageira, mas que era tudo que eu precisava no momento! No entanto, essa alegria não vinha! Nem bêbada eu ficava.. Enquanto isso, pelo contrário, o conteúdo vermelho me sugava pra dentro, tentava prender minha atenção a todo custo, como se fosse um mar em ressaca, me puxando.
Eu, então, cedia por alguns minutos, e voltava a analisar a bebida, até me recuperar para uma nova tentativa.
E foi assim a noite inteira: eu consumindo a bebida cor de sangue, o tédio me consumindo, e meus amigos perdidos nisso tudo.